A bolsa perdeu a razão
O esquizofrênico movimento das bolsas surpreende a cada dia. Eis que a Petrobras comunica ao mercado um lucro de R$ 10,8 bilhões no último trimestre – justamente os três meses mais agudos da crise até aqui – e diz que aumentou a produção e os investimentos em todas as áreas. E mais: mostra que o tamanho do lucro equivale a quase o dobro do que ela havia conseguido no mesmo período do ano anterior. É a melhor marca de um trimestre da companhia nos últimos 21 anos. E aí vem a contradição. A Petrobras está crescendo, em um ritmo nunca antes experimentado, e seu papel, quase ao mesmo tempo, foi o que mais caiu na temporada pós-tsunami dos EUA. É o campeão de queda na bolsa brasileira e detém também a condição de segundo maior baque de todas as ações disponíveis em todas as bolsas pelo mundo. Dá para entender? Analistas, logo na primeira hora do anúncio do lucro recorde, correram a apontar que o mercado havia cometido uma injustiça tremenda com essa baixa forçada dos papéis da Petrobras e que a infundada queda seria corrigida dali por diante. Não foi. Logo que o pregão abriu, naquela manhã da quarta-feira 12, o que se viu foi inacreditável. Uma corrida irracional derrubava o valor da empresa, e arrastava o Ibovespa, cravando uma queda consolidada de 13% na ação da estatal somente naquele dia. Uma alegação risível, banal mesmo, sustentava o movimento: o balanço havia apontado um aumento do custo operacional da empresa, algo até lógico, dado que a estatal, ao aumentar a produção, teria mesmo de ampliar inversões na atividade.
A aposta contra a Petrobras, que pode estar na categoria de pura especulação ou ser obra de investidores desnorteados, não é caso isolado nessa fase de bolsa irracional. Um levantamento com empresas que compõem o índice Bovespa mostrou que dezenas de empresas estão atualmente apresentando uma cotação de seus papéis inferior ao valor patrimonial por ação. Isso significa, na prática, que o mercado avalia essas empresas por menos do que elas têm de dinheiro em caixa. Padronizou-se até aqui que o patrimônio líquido de uma empresa lhe garantiria ao menos um valor equivalente no preço da ação. Isso deixou de ser verdade. Numa bolsa que mais parece o manicômio, quem tem mais agora vale menos.
Carlos José Marques
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