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O Brasil quer entrar no jogo
Com peso econômico, o País tenta ganhar influência nos organismos multilaterais para participar da reforma do sistema financeiro

DENIZE BACOCCINA, enviada especial a Washington

RICARDO STUCKERT/PR
PRIMEIRA OU SEGUNDA DIVISÃO? COM JOGADORES DO TIME DO MILAN, LULA, DO G-20, POSOU AO LADO DE SILVIO BERLUSCONI, DO G-7

FOI UMA FELIZ COINCIdência a última escala do presidente Lula, antes do encontro dos presidentes do G-20, em Washington, que visa propor soluções para a crise financeira global. Antes de desembarcar nos Estados Unidos, Lula esteve na Itália, onde posou para fotos ao lado do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e dos jogadores Leonardo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato – todos do Milan, que pertence ao bilionário político italiano. De lá, os dois líderes seguiram para a capital americana, mas em condições distintas. A Itália, de Berlusconi, joga no clube do G-7 – as setes nações mais ricas do mundo. O Brasil, de Lula, ainda está no bloco do G-20 – o que inclui os emergentes. O problema é que os dois países hoje têm PIBs semelhantes. Além disso, inúmeras projeções, como a do estudo dos BRICs, indicam que, dentro de alguns anos, o Brasil tende a abrir larga vantagem sobre a Itália e também sobre outros integrantes do G-7, como a França. É por isso que o País luta para subir para a primeira divisão – nem que ela tenha que ser ampliada. E, em Washington, será a primeira vez em que o Brasil estará em pé de igualdade com as nações desenvolvidas num fórum de primeira grandeza. “Não podemos mais ir para apenas tomar cafezinho”, diz o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que acompanhava o presidente Lula na missão.

Se a reunião representa a inclusão do Brasil no jogo, ainda restam dúvidas sobre os resultados concretos deste encontro, que começou com um jantar na Casa Branca na sexta-feira 14 e seguiu com reuniões no sábado. “Não esperem muito do G 20. É apenas o começo. Promissor, mas o começo”, disse o presidente Lula, em Roma. Lula ainda aproveita a ida a Washington para uma série de reuniões bilaterais. Entre elas, com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown, o japonês, Taro Aso, e o presidente da China, Hu Jintao. Mas o sucesso da reunião depende muito dos anfitriões. O presidente George W. Bush está em final de mandato, com uma popularidade de pouco mais de 20% e um Congresso dominado pela oposição. O presidente eleito, Barack Obama, foi convidado mas não quis participar do encontro, alegando que o país “só tem um presidente de cada vez”. Obama nomeou dois representantes: a ex-secretária de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright, e o ex-deputado republicano, Jim Leach.

Apesar das declarações de Bush, o clima entre os europeus é de reforma. A reunião de cúpula surgiu por pressão do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que atualmente preside a União Européia. No Velho Continente, a crise no mercado imobiliário começou na Grã-Bretanha e na Espanha, que viviam uma bolha semelhante à dos Estados Unidos, mas a recessão deve atingir a região como um todo no próximo ano. “Precisamos repensar o sistema financeiro desde o início, como em Bretton Woods”, disse Sarkozy em setembro. Existe praticamente um consenso sobre a necessidade de modificar as regras para evitar novas crises financeiras. A grande divergência é o grau de controle que se deve ter sobre o sistema financeiro. Os americanos acreditam que uma regulação severa desestimula o crescimento da economia e não admitem um controle externo. “As reformas do sistema financeiro são essenciais, mas a solução de longo prazo é o crescimento econômico sustentável”, disse o presidente Bush, um dia antes do encontro. Como conseguir este crescimento é outro grande assunto da reunião. De modo geral, há um consenso sobre a necessidade de medidas contracíclicas, com mais gastos públicos para incentivar a economia. O pacote da China na outra semana é parte dessas medidas. Obama pressionou o governo nos últimos dias para que aprove um pacote semelhante.

JOÃO RAPOSO/AG.ISTOÉ
NA REUNIÃO PREPARATÓRIA DO G-20, EM SÃO PAULO, O MINISTRO GUIDO MANTEGA COBROU A INCLUSÃO DOS EMERGENTES NOS DEBATES

Na reunião preparatória, em São Paulo, ficou claro o anseio entre os países em desenvolvimento, incluindo o anfitrião, de ter uma mais voz nas decisões para tirar o mundo da crise. Os países do G-20 disseram, na ocasião, que trabalhariam juntos para apoiar o crescimento econômico e promover a estabilidade financeira. Durante o evento, Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, culparam os Estados Unidos e outros países desenvolvidos por espalharem os problemas financeiros para todo o planeta. “Nenhum país está a salvo da crise financeira. Todos estão sendo contagiados pelos problemas originados em países avançados”, disse Lula, que também promoveu um encontro dos ministros dos países que formam a sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). “Este é um grupo que claramente exercerá influência crescente na economia internacional”, disse o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. O diretor do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, bateu na mesma tecla: “A previsão econômica global para o próximo ano é de que todo o crescimento mundial venha dos países emergentes. É justo olhar para este crescimento e tentar apoiá-lo, porque será o único crescimento que teremos.” A ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, também apóia a inclusão dos emergentes. “Nós propomos que o G-8 se transforme em G-13 com cinco emergentes. Um deles certamente tem que ser o Brasil”, disse.

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