O custo de ser verde A Ikea, maior rede de móveis da Europa, paga até cinco vezes mais para ter produtos sustentáveis nas lojas. Mas ela nem pensa em mexer no modelo
ADRIANA MATTOS, ENVIADA ESPECIAL A NOVA YORK

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| “O modelo não está em discussão. Nossas margens podem ficar mais reduzidas, mas olhamos para a frente”, diz Anders Dahlvig |
AO FINAL DE UMA HORA e meia de palestra num evento sobre sustentabilidae, na sala lotada de um hotel do centro de Manhattan, o CEO mundial da Ikea, Anders Dahlvig, decide ouvir o que os especialistas têm a dizer sobre a empresa que comanda, a maior varejista de móveis e decoração da Europa. Primeira pergunta: “Os consumidores precisam pegar seus carros poluentes e andar por 20, 30 quilômetros para ir até uma loja do senhor. Isso não o preocupa?” Segundos de silêncio e Dahlvig não nega que isso é uma pedra no sapato da rede. “Precisamos abrir unidades em locais de fácil acesso ao transporte público e já estamos fazendo isso.” A mais nova unidade da Ikea, inaugurada em junho ao sul do bairro do Brooklin, em Nova York, disponibiliza um barco aos clientes para o percurso até Manhattan. Cerca de 15 mil pessoas usam o “Hook Rock Ikea Boat” todas as semanas – e não precisam tirar seus automóveis da garagem. Para montar a loja, Dahlvig comprou uma briga feia. Os moradores do Brooklin reclamaram da obra e analistas questionaram o tamanho do investimento (acima de 40 milhões de euros, valor 50% superior ao gasto em unidades na Europa). Pode ser caro? Até pode, mas está exatamente dentro do que a Ikea quer.
A rede colocou na rua um plano de expansão de lojas sustentáveis nos EUA. E isso custa até 50% mais do que o modelo convencional. Evidentemente os resultados sofrem um forte impacto – para baixo. Mas a Ikea nem pensa em mudar de rumo. Isso porque precisa aumentar as vendas – e são as novas unidades que têm mantido a taxa de expansão do grupo. Seu plano é inaugurar de cinco a seis lojas por ano no solo americano. Mas pela frente há dois problemas nada desprezíveis.
Em primeiro lugar, o momento não poderia ser pior. Em 2008, a venda de casas nos EUA terá o pior desempenho dos últimos 28 anos. Se o americano não muda de lar, a Ikea vende menos. A relação é tão direta que o próprio comando da empresa anda resmungando dos resultados de suas 30 unidades espalhadas na América. Para completar, a rede precisa fazer isso gastando mais. A empresa diz que não irá alterar o projeto de abertura de lojas sustentáveis. E todas as unidades da Ikea são sustentáveis. Não se trata de colocar mais jardins de inverno internos ou usar a luz do sol como iluminação natural. Na Ikea, madeira de florestas não passa da porta. Os copos vendidos não podem ter chumbo. As lojas, armazéns, escritórios e fábricas têm 45% de energia renovável. E 71% dos produtos usados na composição de qualquer mercadoria podem ser reutilizados.
Nada disso é barato ou simples. A rede opera no azul há anos e cresce a dois dígitos. Mas para ser fornecedor da Ikea é preciso responder a uma lista com 90 perguntas sobre seus produtos. O questionário é avaliado por um dos 80 auditores independentes, que decidem se vale a pena ou não fechar negócio com a companhia. Cerca de 1,3 mil fornecedores já passaram pela peneira. Mais de 100 mil desvios foram verificados e foi solicitada mudança n forma de produção.
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| Copos vendidos nas lojas não têm chumbo. Nenhum produto tem madeira de florestas. E a companhia opera no azul há anos seguidos |
Quem usava PVC em qualquer mercadoria (exceto isolantes elétricos) foi barrado. O uso de freons (gás usado em geladeiras) também é proibido. Para se ter uma idéia do que essa política faz com os custos da companhia, o PVC (que, se queimado, polui o ar) baratearia a compra pela Ikea em 20%. O freon utilizado em geladeiras custa até 50% a menos no mercado. Ao optar sempre por madeira reutilizada, ela paga até cinco vezes mais. Se desembolsasse menos pelo insumo, a Ikea até poderia operar com margens de lucro maiores. Tiro no pé, então? Não, necessariamente. A Ikea negocia grandes volumes com seus fornecedores, por isso, consegue respeitar normas internas e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto no bolso.
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