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Santa produtividade
Até o Vaticano se rendeu às modernas técnicas de gestão. Agora, funcionários e padres serão avaliados por seu desempenho

JOSÉ SERGIO OSSE

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GETTY IMAGES
PONTO NOSSO DE CADA DIA: Bento XVI fala na Rádio Vaticano, em que o piso salarial é de ? 1.300 por mês

VOCÊ JÁ IMAGINOU PADRES E CARdeais batendo cartão de ponto? Ou bispos sendo avaliados pela qualidade e eficiência de seus serviços? Pois o Vaticano, uma das instituições mais tradicionais e conservadoras do mundo, decidiu abrir espaço para o uso de alguns dos mais modernos instrumentos de gestão empresarial. Na semana passada começaram a ser implantadas novas políticas de recursos humanos no pequeno país europeu, com o objetivo de estabelecer um sistema de remuneração por mérito para os funcionários de seus órgãos administrativos internos. Não se trata - pelo menos por enquanto - de avaliar quantos pais-nossos um padre rezou, qual a taxa de fiéis que conseguiu levar ao confessionário e, muito menos, o grau de influência que um cardeal tem no Santo Conclave. Na prática, a idéia proposta pelo cardeal Tarcisio Bertone é controlar os horários de entrada e saída dos funcionários do Vaticano - tanto os laicos como os sacerdotes. Num segundo momento, a intenção é avaliar e dar notas por sua performance profissional. Tudo para melhorar os "planos de carreira" da instituição religiosa. O primeiro passo foram os cartões eletrônicos de ponto, chamados localmente de "cartellinos", que começaram a ser distribuídos na semana passada a todos os empregados da Santa Sé.

Embora pequena, a cidade-Estado incrustada em Roma tem mais de 6,5 mil funcionários. Entre outros estabelecimentos próprios, abriga um supermercado, um posto de gasolina, uma rádio e até uma estação de trem. Além, é claro, das mais diversas repartições e órgãos administrativos que compõem a estrutura da Igreja. Com salários iniciais bastante modestos, entre ? 1,3 mil e ? 2,3 mil por mês, e limitadas oportunidades de ascensão em sua estrutura hierárquica, a Igreja se apóia muito na devoção dos funcionários para atrair mão-de-obra especializada para suas atividades. Por isso, a medida de Bertone de premiar os funcionários pela qualidade de seu trabalho pode ser uma boa notícia para os devotos trabalhadores da Santa Sé.

Isso não significa uma aceitação universal das medidas do cardeal, que atua como uma espécie de primeiro-ministro do papa Bento XVI. Entre os funcionários mais novos e de cargos mais baixos, a "meritocracia" foi bem recebida. Já entre os trabalhadores mais antigos, em especial sacerdotes que ocupam cargos mais altos, os novos métodos têm semelhanças perturbadoras com medidas revogadas na década de 1960 pelo papa João XXIII - que incluíam o cartão de ponto. Mais do que isso, são muito parecidas com medidas adotadas pelos neoliberais Ronald Reagan e Margareth Thatcher nos EUA e no Reino Unido, respectivamente, na década de 1980 e que foram duramente criticadas pela Igreja Católica na ocasião. A medida, embora tomada no centro nervoso da religião católica, não terá validade para funcionários da Igreja em outros países. Mesmo que tivesse, porém, é possível que se transformassem em regras que "não pegam", como ocorre no Brasil com algumas leis. "Não acredito que isso seja implantado no Brasil, não", diz o assessor de imprensa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Geraldo Martins Dias. "Isso é uma coisa muito específica do Vaticano", completa, citando que a estrutura da CNBB no Brasil, maior País católico do mundo, é muito pequena.

A partir de 2009, quando entrará em vigor também o sistema de avaliação de performance dos funcionários, a coisa promete ficar ainda mais polêmica. Na ocasião, será implantada uma metodologia de análise da qualidade e eficiência do serviço de cada empregado da cidade-Estado. Eles receberão conceitos variando de "ótimo" a "insuficiente" em quatro quesitos básicos: "dedicação", "profissionalismo", "rendimento" e "correção". Notas mais altas abrirão as portas para promoções mais rápidas e melhores salários. No caso de notas piores, o funcionário sempre tem a esperança de ter as mesmas chances de entrar no céu do que seu colega mais bem-sucedido. A menos que a moda pegue.

 


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